sábado, 18 de agosto de 2012

PROGRESSOS, TURBULÊNCIAS E ALEGRIAS

Mas não parei por aí. Enquanto estava no Colégio em Marília minha família morava em São Paulo, no Cangaíba, e nas férias era para lá que íamos. Minhas irmãs, primas e eu, íamos ao cinema, ora na Celso Garcia, onde assistimos "Spartacus", ou no centro da Penha e lá passeávamos muitas vezes ao som de músicas como: "Suave é a noite", com o Moacir Franco entre outras. 
Continuamos a voar e paramos em Garça. Ainda estava no Colégio de Marília. Uma outra coisa boa que me aconteceu aí, eu que era uma lástima em trabalhos manuais nos primeiros anos do ginásio (fui informada disto por uma professora), no 2º ano do curso Normal fui convocada para fazer bolas japonesas com papel de seda, aquelas que parecem casas de abelha. Nunca mais parei de fazer trabalhos artesanais e sempre era solicitada pelas freiras para usar o meu "talento'.Aos poucos fui desmistificando coisas que haviam "profetizado" na minha vida e me descobrindo.
Em Garça moramos na rua do cinema e em frente a ele tinha uma praça com uma fonte luminosa, onde a água bailava ao som de Glenn Miller, e Ray Connif e muitas músicas italianas, elas estavam no auge. Ao redor da fonte, amores perfeitos cercados por muitas roseiras cheirosas. Ali minha irmã Neuza e eu fazíamos o footing (os rapazes ficavam parados ao redor da fonte, dos dois lados e  nós as moças  ficávamos andando o tempo todo em círculo, entre eles). E de novo conheci muitos japoneses. Deixei o colégio,  estudei um semestre em Garça e de novo voamos. Para Araras. Não me pergunte o porquê. Depois que saímos de Getulina, minha mãe não conseguia se fixar em nenhum lugar.
Araras, de jardins imensos, de passeios pelo zoo que ficava à beira do lago, de uma visita  saborosa com a turma da escola à Nestlé, do Jardim Cândida, onde moramos e depois de seis meses, pulamos Leme e aterrissamos em Pirassununga.
Pirassununga, terra de militares, tanto da aeronáutica como da cavalaria. Era um festival de fardas. Novamente pessoas (agora homens) de todos os lugares do Brasil. Sotaques, os mais variados. Hábitos e culturas que eu nem imaginava. Minha curiosidade foi ainda mais atiçada. Estudei no Instituto, andei na praça em frente a Igreja Matriz, fazendo footing, morei na rua dos Lemes, me apaixonei pelo hino da cidade: "Era o Ribeirão do Ouro, que molhou os pés da cruz, marco santo e tesouro da Terra do Bom Jesus...". Lá conheci a família Mourão e até hoje tenho uma amiga-irmã, a Ângela, que reencontrei em dois dos meus voos. Ah! Ia me esquecendo, lá é a terra da 51.                                                      
E, de lá saí professora, era chique na época. E lá conheci o meu príncipe encantado que morava na "Rua do Sapo".Trabalhei na Osram, fábrica de lâmpadas. de onde saí para iluminar mentes, inclusive a minha: comecei a lecionar. Começava a minha caminhada como professora com dezenove anos e meio numa escola em Presidente Altino. E de novo o trem de ferro fazia parte da minha vida, era nele que eu viajava para dar aulas.
Segunda escola. Meu pai que não vivia mais conosco pois já tinha feito outro ninho e uma porção de filhotes, foi quem arrumou para mim. E lá fui eu de volta para São Paulo, na Vila Santa Isabel, em uma caminhada  que iria durar trinta e cinco anos. Nessa jornada, no final dela, na "Cidade do Livro", Lençóis Paulista, não escrevi um livro mas plantei uma biblioteca.



Em seguida o casamento com aquele príncipe encantado de Pirassununga. Ele era da Aeronáutica, e esse foi meu voo mais turbulento. Em pouquíssimo tempo, nem cinco anos, caímos do trono. Nem ele era príncipe, nem eu a princesa. O conto de fadas virou pó.
Mas, que bom que sempre tem um mas. Permaneceram ao meu lado duas pessoinhas reais, (era para serem três mas não deu, uma voou lá para cima) que percorreram junto comigo as mais diferentes trilhas, os mais diversos voos, muita turbulência mas não desastrosa.
A vida se tornou plena, mais cheia de objetivos. E éramos as três mosqueteiras, só três. E caminhamos juntas, voamos juntas e atravessamos juntas as estradas mas nem sempre olhamos os caminhos com os mesmos olhos, nem sentimos os mesmos sabores, nem o perfume das mesmas flores. E até hoje amplio o meu mundo ao conhecer melhor o mundo delas.
Daqui a pouco vou pegar a Veja que comprei no Graal e fazer um teste de memória.
Sabe o que descobri de interessante vasculhando a minha memória? Que o melhor que aconteceu foi ela não ter gravado tudo. Só quero aprender a deletar alguns episódios que até hoje conseguem me deixar mal. Preciso aprender com os garimpeiros, conheci alguns em Catalão, Goiás, a separar bem as coisas. Enxergar no que é fosco o brilho que existe por dentro e a jogar o que só tem brilho por fora, sem valor algum.
Cheguei em Ribeirão Preto. Saí do ar condicionado e pensei que estava entrando num forno. Desse jeito não há pinguim que aguente.
Choperia Pinguim               
Qualquer dia destes volto a navegar por estes meus sessenta e poucos anos.





sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ESCOLA , FAMÍLIA E SONHOS

Continuo no ônibus. Acabei de ver lá no Graal, onde paramos para o lanche, uma TV de plasma e um pouco antes peguei meu celular e liguei para o meu sobrinho querido, o Sérgio que junto com a Janaína, sobrinha neta, me trouxeram até a Rodoviária Tietê, para avisar que já estava a caminho e agradecer por tudo o que me proporcionaram, estive na casa da minha irmã Neuza por quatro dias.
Deu para sentir a distância que percorremos nestes cinquenta anos, deu?
Uau! Dei mais um salto no tempo ("O pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar") e fui parar no campo de futebol de Getulina onde, não me lembro exatamente em qual feriado, nós do ginásio nos apresentávamos com o uniforme de educação física, uma camiseta branca com o símbolo olímpico, uma saínha branca pregueada, tipo tenista, calções vermelhos e fazíamos ginástica rítmica, tendo nas mãos, lenços coloridos. Era lindo!
Mas o que era mais lindo e gostoso, lembra amiga Leudimila, era fugir do ginásio na hora do recreio ( a escola não tinha muros) e ir comer o pão de casa saboroso que a tia Olívia fazia. Era para a casa da tia que eu ia também, como ratinho de biblioteca (eu era muito magrinha) ler as revistas de histórias sagradas do meu primo Antonio. Li histórias de São Cosme e Damião, Santa Rita de Cássia, Santa Rosa de Lima entre tantas outras.
Mais nomes vieram embarcar nessa minha louca viagem: Irene, Maria Helena, Aléssio, José, Álvaro, todos da tia Olívia. Queca, Clídia, do tio Ernesto Vivan, Eleni, Elenice, Lilian, Dulceléia, da tia Nerci. Quanto brincar no quintal da tia Nerci. Eh! Saudade!
Costumava atravessar a cidade para ir à casa da tia Lieta, onde quer que ela estivesse morando, no sítio ou na cidade e compartilhar meus dias ou noites com sua família, a Linda, Jaci, Antenor,Moacir, Negão e Neuza. Deus me presenteou com uma família grande,que me deixou muitos bons momentos gravados indelevelmente no peito.
Só em casa éramos muitos. Moças que vinham do sítio para morar conosco e ajudar a cuidar de nós e se tornavam nossas irmãs ou quase mães.. Entre elas a Nena que casou com o Nildo Caliani, a Maria, Jandira, Lindaura e outra que não me lembro o nome, cuja mãe havia morrido e antes de mudar-se para outro patamar, pediu para minha mãe que cuidasse delas. Minha casa sempre foi muito cheia de gente. Éramos em oito: Maria de Lourdes (Lula), Nerci (Xuxa), Ionete, eu, Neuza Maria, Dirce Léia, Nelson Luís e Sonia Maryce. Uns olhavam pelos outros. A minha parceira nas brincadeiras era quase sempre a Neuza, só dois anos de diferença na idade. Nós duas, pégamos os branquíssimos lençóis da minha mãe, sem que ela visse, é claro, e os amarrávamos nos galhos do cajueiro, imitando a lona do circo. Para assistir as nossas peripécias, o ingresso para a"função" do circo, eram  palitos de fósforo que variavam quanto à quantidade, de acordo com a nossa vontade. E lá vinham entre outras, Mitió, Raremi, Mieko. O pai delas tinha um bar numa esquina, ao lado da padaria do Seu Pedro Vivan, emfrente à igreja matriz.. Por falar no Seu Pedro, até hoje quando assisto novelas de época, de imigrantes italianos ou filmes lembro-me da mãe dele, a nona, viúva, toda de preto, lenço na cabeça, também preto com seus passinhos ligeiros.
Ah! Seu Pedro! Quantos sonhos deliciosos comi e que acabaram fazendo parte das delícias que se acomodaram gostosamente em minha memória.

 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

MUDANÇAS, MUDANÇAS E MUDANÇAS

"Atravessei os sete mares e por todos os lugares por onde andei..." E mudamos de cidade, mudamos e mudamos.
A primeira mudança muito grande na minha vida, ainda morava em Getulina, foi quando, aos dez anos e meio ganhei uma bolsa de estudos para o internato do Colégio Santo Antonio de Garça. Fui para a rodoviária, que ficava perto de casa, acompanhando a carrocinha do "Vovô", que levava um baú com todo o enxoval pedido pelas freiras, roupas de vestir, de cama e de banho todas marcadas com um número, o dezesseis. E voejam mais nomes ao meu redor: Irmãs Afra e Ignácia, alemãs, com sapatos grossos de lugares onde há neve, Lucy, Ercy, Darcy, Renê, Roberto.
Cadê meus horizontes? Cadê minhas árvores? Onde estão meus amigos, minha família?
Foi aí, no colégio, que aprendi a gostar de ler e de teatro. Fui para lá em janeiro, fazer o exame para admissão ao ginásio, um tipo de vestibulinho da época para se entrar no que é hoje a quinta série. Não passei e então tive que fazer o curso de admissão com a duração de um ano. No espaço de tempo entre o exame que fiz e o início das aulas em fevereiro, fiquei sozinha com as freiras. Todas as outras internas foram para suas casas mas minha mãe não pode ir me buscar. As irmãs (freiras) entraram em retiro espiritual e não podiam conversar com ninguém. A madre superiora liberou então a Irmã Ignácia para conversar comigo que, para me entreter, me deu livros. Li Tarzan, tudo de Monteiro Lobato, inclusive as "Histórias de Nazarinio" como dizia a alemã e muitos outros. Até hoje não consigo mais parar de ler.
No Teatro "Leopoldo Fróes, encenamos "A história de Dona Baratinha". Cada uma de nós ensaiava exaustivamente a nossa fala ou melhor música, com uma das freiras ao piano. Durante a infância de minhas filhas, cantei esta história repetidas vezes para entretê-las modificando a voz para cada personagem.
Também passei pelo Colégio São José, de Bauru, mais ou menos aos doze anos. Era menina da casa, trabalhava e ganhava os estudos, casa e comida. Fiquei só meio ano e voltei prá casa.
Moramos em Getulina até minha terceira série ginasial e mais e mais nomes de colegas e amigos: Armandinho, Henriquinho, Nair, Luzia, Nelsa, Vanda, Ionete (minha irmã), José Luís Gregório, José Carlos Torres, Rosa, Marli, Meire Bozzeli, João Batista, Adelaide... ; professores como o Seu Bráulio, Dona Corina, excêntrica, Dona Elizete, Prof. Hulmont, de francês, Prof. Fausto, o de história, que gostava de contar histórias de terror e tantos outros. Lembra Pizza, como era duro declamar poesias em francês, fazendo biquinhos e gestos? Os meninos preferiam tirar nota baixa a recitar lá na frente. E o senhor Pizza era pródigo em inventar palavras, quando não sabia. Papillon virou borboletê, felicidade era felicitê.
Que tempo bom! O professor não permitia que se falasse em português e se falássemos tínhamos que escrever a palavra ou frase, cem duzentas, quinhentas vezes, em francês.Lembro-me da Vanda Martinucci, que pediu para uma colega, uma borracha emprestada. O prof. Hulmont a repreendeu e ela para se justificar disse: _ Só pedi a borracha emprestada. Ele, na hora disse _  Emprête-moi ta gomme, duzentas vezes. Ela, pôs as mãos na cabeça e disse: _ Ah, meu Deus! E ele rapidamente: _ Quinhentas vezes " Ah Mon Dieu. Bem, não sei se acertei no francês.
Mudamos, a família toda, para São Paulo. Fomos de ônibus, o da Reunidas. O que mais me marcou, ao nos aproximarmos do nosso destino quando já era noitinha, foi aquela imensidão de luzes. Minha irmã caçula de cinco anos, quando eu lhe disse que eram as luzes da cidade, retrucou: __ Você não está vendo que são estrelas, sua boba! Não existe tanta casa assim junta!
É! Não é fácil uma mudança tão grande. Minha cidade devia ter na época uns seis mil habitantes.
  Lá, na Vila Maria Alta, bairro onde fomos morar, refiz a terceira série ginasial (sétima série ou oitavo ano, hoje) onde tive o imenso prazer de assistir a palestra de uma senhora que enxergava longe. Dorina Gouveia Nowil era cega. Gostaria de ter podido compartilhar com ela, visões do mundo. Ficou cega aos dezessete anos e mais tarde criou junto com outras normalistas, a Fundação do Livro para Cegos.
Foi na Vila Maria Baixa , perto da Igreja da Candelária, que fui ao cinema com uma amiga da escola para assistir "Estrela de Fogo", com Elvis Presley, a sensação do momento. Estávamos no ano de 1961. Ao voltar para casa, imprudente, sozinha, tarde da noite, garoando, atravessei a Praça Cosmorama, o coração saindo pela boca, morrendo de medo. Quando via alguém fumando, já pensava que era maconha. Não sabia o que era isso, nem sabia reconhecer um drogado,mas o medo da cidade grande era tanto que via fantasmas drogados por todos os lados.
Andei de bonde. Que delícia! Passeei pela rua Catumbi, Celso Garcia, Praça da Sé, Clóvis Bevilaqua, Rua Direita e muitos outros lugares.
Experimentei uns goles dessa loucura sadia que é São Paulo e no ano seguinte fui para Marília estudar como interna no Colégio Sagrado Coração de Jesus.
Cadê meus horizontes? Meus barulhos novos?
Reaprendi a viver dentro de muros imensos, corredores imensos. Privacidade? Nenhuma! Estava num colégio de freiras. De novo! E de novo era um número, o noventa e cinco, em Garça era o dezesseis.
Agora, com mais idade, dezesseis anos. Novas amigas. Novos lugares, limitados mas novos. Através dada frestas ou olhadas rápidas pelas janelas ou ao andarmos em fila pelas ruas, víamos a vida fluir lá fora. Quando íamos ao bosque, cantávamos pelo caminho o tempo todo, sempre em fila.
E, pelos corredores, no pátio, desfilavam conversas saudosas de Lutécia, Lupércio, Oswaldo Cruz, Echaporã, Tupã, Vera Cruz, Jaú, e dentre tantas outras, Getulina e também São Paulo. De novo encontrei as irmãs Daun, de Lupércio (antes foi no colégio de Garça) e de lá também conheci a Neide, grande amiga (lembra da cama de gato?).
Conheci a Irmã Jovita que me fez aprender Matemática. Foi aí que descobri que não era burra. Consegui tirar quase que só dez e passar com a média nove e meio, eu que tinha conseguido, dois anos antes, ser reprovada em matemática com zero no exame oral.
 A bênção Irmã Jovita, a senhora me ajudou a mudar os rumos da minha história. 
E aí, no Colégio, vivemos, mas não convivemos, minhas duas irmãs, Neuza Maria e Dirce Léia e eu. Eu era da turma das "maiores" e elas das "menores". Elas viviam em outra sala de estudos (onde ficávamos o tempo todo depois que saíamos da sala de aula). Em cada sala de estudos ficava uma freira que tomava conta de nós; Irmã Leudêmia com as menores e Irmã Eulália com as maiores. Passávamos cerca de nove horas por dias sentadas em carteiras, estudando. Minhas irmãs dormiam em outro dormitório (vigiado o tempo todo pela freira que dormia dentro dele em um  cubículo). Nós nos encontrávamos nos recreios depois do almoço, do café da tarde e do jantar. Nos víamos mas nossos horários e nossos espaços não eram os mesmos.Minha mãe nos levava no começo de fevereiro e ia nos buscar para as férias de julho. Depois ficávamos lá de agosto a dezembro,sem ir nenhuma vez para casa. Fiquei aí por dois anos.
Nós, internas, usávamos códigos escritos para nos comunicar sem que as freiras nos entendessem. Um deles era o "Zenit Polar"(qualquer dia destes te ensino se te interessar).
Aprendi a gostar de recitais de piano, do Torna Sorriento", na voz da professora Clarice e a vislumbrar novos horizontes através das histórias de tantas garotas, de tantos lugares diferentes.  
De novo o cinema voltou a minha mente. Aprendi a gostar de  filmes japoneses que eram passados no salão do colégio ou íamos em fila ao cinema da cidade, uniformizadas, quietinhas. Olha aí meu povo, a distância entre hábitos e costumes. Olha só o uniforme: blusa de gola alta, com gravata e mangas compridas, sapatos de amarrar e meias que iam até metade da canela, onde se encontrava com a saia azul marinho de pregas. Protegidíssimas, íamos em fila de duas em duas, com a instrução expressa de não olharmos para os rapazes. Isto me faz lembrar um desenho da televisão "Madeleine". 
Pensando nas roupas que usávamos olhei para o meu ombro e vi a marca do biquini! Acabei de voltar da praia. Olha a distância aí de novo, gente!  

CAFÉ, POLÍTICA E RÁDIO

Naquele tempo, anos 50, os adultos da minha cidade, inclusive meus pais, se envolviam em querelas políticas ( o Rato e o Coelho (candidatos locais), Varre, varre vassourinha do Jânio Quadros, impagável, etc ou com os artistas da Rádio Nacional, Mayrink Veiga: Chico Viola, Emilinha Borba, Marlene, Neuza Maria, Lúcia Helena, Dalva de Oliveira, Dircinha e Linda Batista, Jorge Veiga, Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Cauby Peixoto, etc. Dona Luzinete escolheu dentre eles, nomes para registrar três fillhas e um filho. Uma delas já não se encontra entre nós, está em outro patamar nos trazendo muita saudade.
Era a época de ouro do rádio: Repórter Esso, Balança mas não cai,um edifício que era uma zorra total, com muitos dos nossos grandes comediantes; a novela, "A morte ronda o lago", tenebrosa, assustadora, "Jerônimo, o herói do sertão" e outras que me fugiram da memória. Depois de casada, anos 70 estive em São Paulo e fui conhecer a Rádio São Paulo com minhas filhas e conhecer os artistas. Que surpresa ao ver que a "mocinha" da novela era uma simpática senhora, e o galã que na nossa imaginação era um belíssimo rapagão, era completamente diferente. Surpresa e ao mesmo tempo decepção.
Daqui a pouco chego à terra do Bar Pinguim de hoje. Ribeirão Preto se aproxima.
É muito pouco tempo para tanta mudança. Não, não é de lugar não! São mudanças de hábitos e atitudes, de aparelhos eletro eletrônicos, de objetivos, de ritmo de vida. De crianças livres e soltas para crianças aprisionadas entre quatro paredes ou muros. Quem diria que há cinquenta anos atrás, (não ria não! Se você só viveu quinze dezoito ou quarenta anos, fique sabendo que cinquenta é pouquíssimo tempo), eu, por volta dos doze ou treze anos, rachava lenha, para o fogão, torrava café e aproveitava para assar castanhas de caju dos nossos três lindos cajueiros e moía o café só na hora de coar.
Lá no bar Pinguim, por volta dos meus seis ou sete anos ou oito anos (Lembra? Ai que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida..., Grupo Escolar João Leonel Berbert, orfeão com a Dona Aparecida Brandão...) já havia máquina registradora, um rádio importado que na época era raro e caro, ligado a um alto-falante que espalhava o som para os clientes e viajantes, pois lá também foi ponto de ônibus quando não havia rodoviária na cidade.
Nosso bar era o point do pessoal das fazendas, na época a maioria de café; das vilas vizinhas, do pessoal de santa América, Sete de Abril, Macucos, Guaimbê ...Uma pessoa que sempre me vem à memória, sentada à mesa do bar conversando com meu pai, Manoel Camello é o João Vieira (casado com a professora Rosa), ambos com seus ternos brancos de linho. 
Em uma visita que fiz a Getulina, alguns anos atrás, levada pelo meu genro e minha filha que quiseram conhecer a terra onde nasci, recebi de Dona Clarice Falqueiro, muito querida, um copo de chopp que era do Pinguim, um presente que minha mãe lhe havia dado quando mudamos de lá. Eu o guardo com muito carinho!
Você deve estar pensando que é saudosismo, até pode ser, mas é memorismo. Não posso deixar apagar de vez aquilo que me fez ser quem eu sou. Se não der prá guardar na cabeça, guardo num pen drive.
Deu prá você perceber a distância louca que nós, da minha geração, percorremos em tão pouco tempo? 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

BANDINHA, FILMES E REVISTAS

Bem, voltei para o ônibus e para a bandinha do Seu Edgard Feres. 
Minha casa, (não mais no Bar Pinguim, nem perto do campo de futebol, onde morei depois de vendermos o bar, mas na Wenceslau Braz, em frente à casa da Dona Clarice e Seu Alberto e do Seu Edgard e Dona Geni) que ficava bem acima do nível da rua e de lá ouvíamos, no gostoso entardecer, o som da corneta do Seu Edgard convocando os componentes da banda para que pegassem suas tampas de panelas, latas de ceras vazias ou panelas com pauzinhos para tocarmos, marchando pelas proximidades.
Pronto! Saí da banda e me vieram à memória nomes e mais nomes: Lalá, Anésio, Dinho, Eli (quanto cantamos juntas as músicas de Libertad Lamarque, Miguel Aceves Mejia, Joselito...), Leudimila, Lidimila, Adalberto, Sérgio, Druzila, Julinha, Dona Nena, José Luís, Marli, José Carlos, Henriquinho.
Lembrei-me de Libertad Lamarque e o primeiro filme "Titanic". Pronto! Voltei para o cinema na Rua Dr. Carlos de Campos. Será que ele ainda existe? 

Era lá que assistíamos os filmes de bang-bang em seriados que acompanhávamos religiosamente nas matinês dos domingos com nossos lindos vestidos de organdi suiço, bordados a mão, nos áureos tempos do Bar Pinguim. Personagens que de vez em quando desfilam em minhas lembranças: Tarzan, Mazzaropi, Hopalong Cassidy, Zorro, Marcelino Pão e Vinho, Os três patetas, O Gordo e o Magro e ainda outros que já foram deletados da memória.
Tá vendo? Foi só mexer no baú que mais e mais nomes surgiram: Dona Nélide, (onde eu ficava horas e horas no porão de sua casa lendo as revistas "O Cruzeiro", Manchete", "Capricho", "GrandeHotel", (quantos clássicos da literatura mundial, tomei conhecimento através desta revista.), Ivinho, Neidinha, Nueleide, Mitió, Raremi, Mieko. Ah! Meus bons e amáveis amigos japoneses: Massaro, Massako, Toshirico. Os japoneses abraçaram Getulina e Getulina os abraçou. Eu os destranco da memória e os gravo em novos arquivos. 
Seria muito bom poder resgatar todos os arquivos da memória e colocá-los num pen drive.
Não, não ria não. Não é loucura nem mania de quem só tem uns sessenta e poucos anos.
Se você juntar os seus arquivos com os meus, vou uní-los o mais harmonicamente possível pois nem tudo o que vivemos juntos, vimos da mesma maneira, pelo mesmo prisma e assim poderemos completar e eternizar as nossas memórias.



sexta-feira, 22 de junho de 2012

VOOS, SORVETES E FADAS

A minha cidade era especial. A fábrica de blocos de cimento deve ter sido criada por fadas, pois muitas ruas eram calçadas com estes blocos e formavam "amarelinhas". Era só pegar um caco de telha, riscar em volta dos blocos e brincávamos horas e   
horas em busca do céu.



Voei. Voei para outros lugares. Primeiro para um lugar imenso, instigante, coloridíssimo, barulhentíssimo, carregado de panoramas diversos, uns lindíssimos e outros feíssimos. São Paulo era um festival de superlativos. Lugar de tantos sons, tantos sabores, tantos não sei quê se mesclavam e despertavam em mim uma curiosidade imensa.
Volto em pensamento para Getulina, a terra onde nasci e graças aos meus arquivos que ainda não foram deletados, vejo a Dona Luzinete, minha mãe, atrás do balcão fazendo seus deliciosos sorvetes. É não se podia ir à Getulina sem dar uma chegadinha no Bar Pinguim e sem saborear os deliciosos sorvetes da Dona Luza (não, não era portuguesa não, veio lá de Pernambuco).
Lá dentro, lá nos fundos do bar, ficava a casa e a Nena e a Jandira cuidavam de nós e mexiam os apetitosos doces de leite, de amendoim, cocada,etc, que a minha mãe fazia.
O Pinguim de Getulina foi palco de muitos encontros famosos. Lugar por onde grandes políticos como Lucas Nogueira Garcez, Ademar de Barros e outros por lá passaram em épocas de eleição em seus grandes comícios.
Na minha rua, havia a bandinha do Seu Edgard e lá íamos nós assim que a corneta tocava. 
Parada no Graal. Tomei um cafezinho e comprei uma "Veja" em cuja capa está estampada em letras garrafais a palavra memória e onde a Ciência procura desvendar os mecanismos do cérebro que nos fazem lembrar e esquecer. Vou ler com atenção, pois tem umas coisas que eu gostaria de deixar bem gravadas na memória. Também tem algumas que adoraria esquecer mas elas se alojaram teimosamente em meus neurônios. Ainda vou expulsá-las ou guardar só os males que resultaram em bens.
Bem, voltei para o ônibus e para a bandinha do Seu Edgard Feres.  

quinta-feira, 7 de junho de 2012

De Pinguim a Pinguim 2

Aí vão minhas passadas pela vida (passos não só dados com os pés mas com corpo e alma), que começaram em 1946, um ano após o fim da segunda guerra mundial.
O outono se aproximava do fim e eu do começo. Naquele final de junho,dia 20, só esperei o sol nascer e, as sete horas e sete minutos cheguei. Muito branca sem ser de neve e cabelos negros como o ébano. Chamava muito a atenção.
Disposta já a aprontar, quando todos os bebês viviam envoltos em faixas eu, por conta de um problema de pele, passei quase um ano nua.
Hoje já não chamo a atenção. Os cabelos pretos ficaram castanhos e depois ao quererem ficar brancos, o louro-cinza os cobriu. A pele, curtida pelo sol ao soltar pipa, jogar bola e mais tarde atravessar canaviais para dar aulas, amorenou-se.
Cresci ao lado do cinema, em Getulina, no Bar Cinelândia e em frente ao Banco São Paulo. Carlinhos, filho do gerente do banco e eu, ficávamos sentados de mãos dadas na frente ao cinema, afinal, já devíamos ter quatro ou cinco anos.
Mais tarde, não  sei exatamente quando, mudamos para o Bar Pinguim, que se tornou o mais famoso point da minha pequenina mas tão querida cidade.
No começo de dois mil e dez, pleno verão, estava no ônibus indo para a terra do famoso Bar Pinguim, não o meu que há muito tempo não mais existe.
Nem sei como nem porquê resolvi escrever dentro do ônibus.
Estou vendo paisagens lindíssimas, depois de ter visto uma tremendamente horrorosa, o rio Tietê em São Paulo, Eu o conheço lá na Barra Bonita onde é charmoso, exuberante, navegável. _ Ei, se você pode, ajude a salvar o Tietê!
Pego na "pena", não para contar as minhas penas, mas para com os meus olhos de hoje, rememorar o que os meus olhares de ontem perceberam e gravaram. Mesmo que esse olhar esteja um tanto adulterado, pois não sei até onde minhas memórias são reais ou se ao relembrá-las, coloco muitas vezes outros sons e outros sabores.