Mas não parei por aí. Enquanto estava no Colégio em Marília minha família morava em São Paulo, no Cangaíba, e nas férias era para lá que íamos. Minhas irmãs, primas e eu, íamos ao cinema, ora na Celso Garcia, onde assistimos "Spartacus", ou no centro da Penha e lá passeávamos muitas vezes ao som de músicas como: "Suave é a noite", com o Moacir Franco entre outras.
Continuamos a voar e paramos em Garça. Ainda estava no Colégio de Marília. Uma outra coisa boa que me aconteceu aí, eu que era uma lástima em trabalhos manuais nos primeiros anos do ginásio (fui informada disto por uma professora), no 2º ano do curso Normal fui convocada para fazer bolas japonesas com papel de seda, aquelas que parecem casas de abelha. Nunca mais parei de fazer trabalhos artesanais e sempre era solicitada pelas freiras para usar o meu "talento'.Aos poucos fui desmistificando coisas que haviam "profetizado" na minha vida e me descobrindo.
Em Garça moramos na rua do cinema e em frente a ele tinha uma praça com uma fonte luminosa, onde a água bailava ao som de Glenn Miller, e Ray Connif e muitas músicas italianas, elas estavam no auge. Ao redor da fonte, amores perfeitos cercados por muitas roseiras cheirosas. Ali minha irmã Neuza e eu fazíamos o footing (os rapazes ficavam parados ao redor da fonte, dos dois lados e nós as moças ficávamos andando o tempo todo em círculo, entre eles). E de novo conheci muitos japoneses. Deixei o colégio, estudei um semestre em Garça e de novo voamos. Para Araras. Não me pergunte o porquê. Depois que saímos de Getulina, minha mãe não conseguia se fixar em nenhum lugar.
Araras, de jardins imensos, de passeios pelo zoo que ficava à beira do lago, de uma visita saborosa com a turma da escola à Nestlé, do Jardim Cândida, onde moramos e depois de seis meses, pulamos Leme e aterrissamos em Pirassununga.
Pirassununga, terra de militares, tanto da aeronáutica como da cavalaria. Era um festival de fardas. Novamente pessoas (agora homens) de todos os lugares do Brasil. Sotaques, os mais variados. Hábitos e culturas que eu nem imaginava. Minha curiosidade foi ainda mais atiçada. Estudei no Instituto, andei na praça em frente a Igreja Matriz, fazendo footing, morei na rua dos Lemes, me apaixonei pelo hino da cidade: "Era o Ribeirão do Ouro, que molhou os pés da cruz, marco santo e tesouro da Terra do Bom Jesus...". Lá conheci a família Mourão e até hoje tenho uma amiga-irmã, a Ângela, que reencontrei em dois dos meus voos. Ah! Ia me esquecendo, lá é a terra da 51.
E, de lá saí professora, era chique na época. E lá conheci o meu príncipe encantado que morava na "Rua do Sapo".Trabalhei na Osram, fábrica de lâmpadas. de onde saí para iluminar mentes, inclusive a minha: comecei a lecionar. Começava a minha caminhada como professora com dezenove anos e meio numa escola em Presidente Altino. E de novo o trem de ferro fazia parte da minha vida, era nele que eu viajava para dar aulas.
Segunda escola. Meu pai que não vivia mais conosco pois já tinha feito outro ninho e uma porção de filhotes, foi quem arrumou para mim. E lá fui eu de volta para São Paulo, na Vila Santa Isabel, em uma caminhada que iria durar trinta e cinco anos. Nessa jornada, no final dela, na "Cidade do Livro", Lençóis Paulista, não escrevi um livro mas plantei uma biblioteca.
Em seguida o casamento com aquele príncipe encantado de Pirassununga. Ele era da Aeronáutica, e esse foi meu voo mais turbulento. Em pouquíssimo tempo, nem cinco anos, caímos do trono. Nem ele era príncipe, nem eu a princesa. O conto de fadas virou pó.
Mas, que bom que sempre tem um mas. Permaneceram ao meu lado duas pessoinhas reais, (era para serem três mas não deu, uma voou lá para cima) que percorreram junto comigo as mais diferentes trilhas, os mais diversos voos, muita turbulência mas não desastrosa.
A vida se tornou plena, mais cheia de objetivos. E éramos as três mosqueteiras, só três. E caminhamos juntas, voamos juntas e atravessamos juntas as estradas mas nem sempre olhamos os caminhos com os mesmos olhos, nem sentimos os mesmos sabores, nem o perfume das mesmas flores. E até hoje amplio o meu mundo ao conhecer melhor o mundo delas.
Daqui a pouco vou pegar a Veja que comprei no Graal e fazer um teste de memória.
Sabe o que descobri de interessante vasculhando a minha memória? Que o melhor que aconteceu foi ela não ter gravado tudo. Só quero aprender a deletar alguns episódios que até hoje conseguem me deixar mal. Preciso aprender com os garimpeiros, conheci alguns em Catalão, Goiás, a separar bem as coisas. Enxergar no que é fosco o brilho que existe por dentro e a jogar o que só tem brilho por fora, sem valor algum.
Cheguei em Ribeirão Preto. Saí do ar condicionado e pensei que estava entrando num forno. Desse jeito não há pinguim que aguente.
Qualquer dia destes volto a navegar por estes meus sessenta e poucos anos.


