A primeira mudança muito grande na minha vida, ainda morava em Getulina, foi quando, aos dez anos e meio ganhei uma bolsa de estudos para o internato do Colégio Santo Antonio de Garça. Fui para a rodoviária, que ficava perto de casa, acompanhando a carrocinha do "Vovô", que levava um baú com todo o enxoval pedido pelas freiras, roupas de vestir, de cama e de banho todas marcadas com um número, o dezesseis. E voejam mais nomes ao meu redor: Irmãs Afra e Ignácia, alemãs, com sapatos grossos de lugares onde há neve, Lucy, Ercy, Darcy, Renê, Roberto.
Cadê meus horizontes? Cadê minhas árvores? Onde estão meus amigos, minha família?
Foi aí, no colégio, que aprendi a gostar de ler e de teatro. Fui para lá em janeiro, fazer o exame para admissão ao ginásio, um tipo de vestibulinho da época para se entrar no que é hoje a quinta série. Não passei e então tive que fazer o curso de admissão com a duração de um ano. No espaço de tempo entre o exame que fiz e o início das aulas em fevereiro, fiquei sozinha com as freiras. Todas as outras internas foram para suas casas mas minha mãe não pode ir me buscar. As irmãs (freiras) entraram em retiro espiritual e não podiam conversar com ninguém. A madre superiora liberou então a Irmã Ignácia para conversar comigo que, para me entreter, me deu livros. Li Tarzan, tudo de Monteiro Lobato, inclusive as "Histórias de Nazarinio" como dizia a alemã e muitos outros. Até hoje não consigo mais parar de ler.
No Teatro "Leopoldo Fróes, encenamos "A história de Dona Baratinha". Cada uma de nós ensaiava exaustivamente a nossa fala ou melhor música, com uma das freiras ao piano. Durante a infância de minhas filhas, cantei esta história repetidas vezes para entretê-las modificando a voz para cada personagem.
Também passei pelo Colégio São José, de Bauru, mais ou menos aos doze anos. Era menina da casa, trabalhava e ganhava os estudos, casa e comida. Fiquei só meio ano e voltei prá casa.
Moramos em Getulina até minha terceira série ginasial e mais e mais nomes de colegas e amigos: Armandinho, Henriquinho, Nair, Luzia, Nelsa, Vanda, Ionete (minha irmã), José Luís Gregório, José Carlos Torres, Rosa, Marli, Meire Bozzeli, João Batista, Adelaide... ; professores como o Seu Bráulio, Dona Corina, excêntrica, Dona Elizete, Prof. Hulmont, de francês, Prof. Fausto, o de história, que gostava de contar histórias de terror e tantos outros. Lembra Pizza, como era duro declamar poesias em francês, fazendo biquinhos e gestos? Os meninos preferiam tirar nota baixa a recitar lá na frente. E o senhor Pizza era pródigo em inventar palavras, quando não sabia. Papillon virou borboletê, felicidade era felicitê.
Que tempo bom! O professor não permitia que se falasse em português e se falássemos tínhamos que escrever a palavra ou frase, cem duzentas, quinhentas vezes, em francês.Lembro-me da Vanda Martinucci, que pediu para uma colega, uma borracha emprestada. O prof. Hulmont a repreendeu e ela para se justificar disse: _ Só pedi a borracha emprestada. Ele, na hora disse _ Emprête-moi ta gomme, duzentas vezes. Ela, pôs as mãos na cabeça e disse: _ Ah, meu Deus! E ele rapidamente: _ Quinhentas vezes " Ah Mon Dieu. Bem, não sei se acertei no francês.
Mudamos, a família toda, para São Paulo. Fomos de ônibus, o da Reunidas. O que mais me marcou, ao nos aproximarmos do nosso destino quando já era noitinha, foi aquela imensidão de luzes. Minha irmã caçula de cinco anos, quando eu lhe disse que eram as luzes da cidade, retrucou: __ Você não está vendo que são estrelas, sua boba! Não existe tanta casa assim junta!
É! Não é fácil uma mudança tão grande. Minha cidade devia ter na época uns seis mil habitantes.
Lá, na Vila Maria Alta, bairro onde fomos morar, refiz a terceira série ginasial (sétima série ou oitavo ano, hoje) onde tive o imenso prazer de assistir a palestra de uma senhora que enxergava longe. Dorina Gouveia Nowil era cega. Gostaria de ter podido compartilhar com ela, visões do mundo. Ficou cega aos dezessete anos e mais tarde criou junto com outras normalistas, a Fundação do Livro para Cegos.
Foi na Vila Maria Baixa , perto da Igreja da Candelária, que fui ao cinema com uma amiga da escola para assistir "Estrela de Fogo", com Elvis Presley, a sensação do momento. Estávamos no ano de 1961. Ao voltar para casa, imprudente, sozinha, tarde da noite, garoando, atravessei a Praça Cosmorama, o coração saindo pela boca, morrendo de medo. Quando via alguém fumando, já pensava que era maconha. Não sabia o que era isso, nem sabia reconhecer um drogado,mas o medo da cidade grande era tanto que via fantasmas drogados por todos os lados.
Andei de bonde. Que delícia! Passeei pela rua Catumbi, Celso Garcia, Praça da Sé, Clóvis Bevilaqua, Rua Direita e muitos outros lugares.
Experimentei uns goles dessa loucura sadia que é São Paulo e no ano seguinte fui para Marília estudar como interna no Colégio Sagrado Coração de Jesus.
Cadê meus horizontes? Meus barulhos novos?
Cadê meus horizontes? Meus barulhos novos?
Reaprendi a viver dentro de muros imensos, corredores imensos. Privacidade? Nenhuma! Estava num colégio de freiras. De novo! E de novo era um número, o noventa e cinco, em Garça era o dezesseis.
Agora, com mais idade, dezesseis anos. Novas amigas. Novos lugares, limitados mas novos. Através dada frestas ou olhadas rápidas pelas janelas ou ao andarmos em fila pelas ruas, víamos a vida fluir lá fora. Quando íamos ao bosque, cantávamos pelo caminho o tempo todo, sempre em fila.
E, pelos corredores, no pátio, desfilavam conversas saudosas de Lutécia, Lupércio, Oswaldo Cruz, Echaporã, Tupã, Vera Cruz, Jaú, e dentre tantas outras, Getulina e também São Paulo. De novo encontrei as irmãs Daun, de Lupércio (antes foi no colégio de Garça) e de lá também conheci a Neide, grande amiga (lembra da cama de gato?).
Agora, com mais idade, dezesseis anos. Novas amigas. Novos lugares, limitados mas novos. Através dada frestas ou olhadas rápidas pelas janelas ou ao andarmos em fila pelas ruas, víamos a vida fluir lá fora. Quando íamos ao bosque, cantávamos pelo caminho o tempo todo, sempre em fila.
E, pelos corredores, no pátio, desfilavam conversas saudosas de Lutécia, Lupércio, Oswaldo Cruz, Echaporã, Tupã, Vera Cruz, Jaú, e dentre tantas outras, Getulina e também São Paulo. De novo encontrei as irmãs Daun, de Lupércio (antes foi no colégio de Garça) e de lá também conheci a Neide, grande amiga (lembra da cama de gato?).
Conheci a Irmã Jovita que me fez aprender Matemática. Foi aí que descobri que não era burra. Consegui tirar quase que só dez e passar com a média nove e meio, eu que tinha conseguido, dois anos antes, ser reprovada em matemática com zero no exame oral.
A bênção Irmã Jovita, a senhora me ajudou a mudar os rumos da minha história.
E aí, no Colégio, vivemos, mas não convivemos, minhas duas irmãs, Neuza Maria e Dirce Léia e eu. Eu era da turma das "maiores" e elas das "menores". Elas viviam em outra sala de estudos (onde ficávamos o tempo todo depois que saíamos da sala de aula). Em cada sala de estudos ficava uma freira que tomava conta de nós; Irmã Leudêmia com as menores e Irmã Eulália com as maiores. Passávamos cerca de nove horas por dias sentadas em carteiras, estudando. Minhas irmãs dormiam em outro dormitório (vigiado o tempo todo pela freira que dormia dentro dele em um cubículo). Nós nos encontrávamos nos recreios depois do almoço, do café da tarde e do jantar. Nos víamos mas nossos horários e nossos espaços não eram os mesmos.Minha mãe nos levava no começo de fevereiro e ia nos buscar para as férias de julho. Depois ficávamos lá de agosto a dezembro,sem ir nenhuma vez para casa. Fiquei aí por dois anos.
Nós, internas, usávamos códigos escritos para nos comunicar sem que as freiras nos entendessem. Um deles era o "Zenit Polar"(qualquer dia destes te ensino se te interessar).
Aprendi a gostar de recitais de piano, do Torna Sorriento", na voz da professora Clarice e a vislumbrar novos horizontes através das histórias de tantas garotas, de tantos lugares diferentes.
De novo o cinema voltou a minha mente. Aprendi a gostar de filmes japoneses que eram passados no salão do colégio ou íamos em fila ao cinema da cidade, uniformizadas, quietinhas. Olha aí meu povo, a distância entre hábitos e costumes. Olha só o uniforme: blusa de gola alta, com gravata e mangas compridas, sapatos de amarrar e meias que iam até metade da canela, onde se encontrava com a saia azul marinho de pregas. Protegidíssimas, íamos em fila de duas em duas, com a instrução expressa de não olharmos para os rapazes. Isto me faz lembrar um desenho da televisão "Madeleine".
Pensando nas roupas que usávamos olhei para o meu ombro e vi a marca do biquini! Acabei de voltar da praia. Olha a distância aí de novo, gente!
E aí, no Colégio, vivemos, mas não convivemos, minhas duas irmãs, Neuza Maria e Dirce Léia e eu. Eu era da turma das "maiores" e elas das "menores". Elas viviam em outra sala de estudos (onde ficávamos o tempo todo depois que saíamos da sala de aula). Em cada sala de estudos ficava uma freira que tomava conta de nós; Irmã Leudêmia com as menores e Irmã Eulália com as maiores. Passávamos cerca de nove horas por dias sentadas em carteiras, estudando. Minhas irmãs dormiam em outro dormitório (vigiado o tempo todo pela freira que dormia dentro dele em um cubículo). Nós nos encontrávamos nos recreios depois do almoço, do café da tarde e do jantar. Nos víamos mas nossos horários e nossos espaços não eram os mesmos.Minha mãe nos levava no começo de fevereiro e ia nos buscar para as férias de julho. Depois ficávamos lá de agosto a dezembro,sem ir nenhuma vez para casa. Fiquei aí por dois anos.
Nós, internas, usávamos códigos escritos para nos comunicar sem que as freiras nos entendessem. Um deles era o "Zenit Polar"(qualquer dia destes te ensino se te interessar).
Aprendi a gostar de recitais de piano, do Torna Sorriento", na voz da professora Clarice e a vislumbrar novos horizontes através das histórias de tantas garotas, de tantos lugares diferentes.
De novo o cinema voltou a minha mente. Aprendi a gostar de filmes japoneses que eram passados no salão do colégio ou íamos em fila ao cinema da cidade, uniformizadas, quietinhas. Olha aí meu povo, a distância entre hábitos e costumes. Olha só o uniforme: blusa de gola alta, com gravata e mangas compridas, sapatos de amarrar e meias que iam até metade da canela, onde se encontrava com a saia azul marinho de pregas. Protegidíssimas, íamos em fila de duas em duas, com a instrução expressa de não olharmos para os rapazes. Isto me faz lembrar um desenho da televisão "Madeleine".
Pensando nas roupas que usávamos olhei para o meu ombro e vi a marca do biquini! Acabei de voltar da praia. Olha a distância aí de novo, gente!
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